Observatórios astronômicos distribuídos pelo planeta e missões espaciais dedicadas ao mapeamento da Via Láctea alcançaram um marco inédito na astronomia moderna. Pela primeira vez, cientistas conseguiram medir de forma direta a massa e a distância de um planeta errante, um corpo que vaga sozinho pelo espaço interestelar.
Planetas errantes sempre foram um desafio para a ciência. Sem estrela hospedeira e praticamente invisíveis, eles escapavam das medições precisas. Agora, uma combinação rara de observações terrestres e espaciais quebrou um limite histórico da astrofísica.
Planetas errantes: mundos sem estrela e quase invisíveis
Planetas errantes, também conhecidos como planetas livres, são corpos planetários que não orbitam nenhuma estrela. Eles vagam pela galáxia de forma solitária, sem uma fonte de luz próxima.
A principal explicação para sua existência envolve interações gravitacionais violentas, capazes de expulsar planetas inteiros de seus sistemas de origem.
Sem uma estrela para iluminar ou sofrer oscilações gravitacionais detectáveis, esses planetas se tornam praticamente invisíveis para métodos tradicionais.
Mesmo podendo ter massas comparáveis às de gigantes gasosos conhecidos, eles passam despercebidos em meio ao fundo estelar.
A microlente gravitacional e o problema da degenerescência
A única técnica eficaz para detectar planetas errantes é a microlente gravitacional, um efeito previsto pela relatividade geral.
Quando um objeto massivo passa à frente de uma estrela distante, sua gravidade curva a luz, produzindo um breve aumento de brilho.
Esse efeito confirma a presença do objeto, mas não revela diretamente sua massa nem sua distância.
Esse impasse é conhecido como degenerescência massa-distância, pois diferentes combinações desses fatores geram curvas de luz quase idênticas.
O evento raro observado da Terra e do espaço
O planeta foi detectado por dois levantamentos independentes, recebendo os nomes KMT-2024-BLG-0792 e OGLE-2024-BLG-0516.
Além de telescópios em solo, o evento foi observado pelo telescópio espacial Gaia, posicionado a milhões de quilômetros da Terra.
A diferença de perspectiva permitiu medir o paralaxe de microlente, algo extremamente raro nesses eventos.
Essa geometria favorável tornou possível separar, pela primeira vez, os valores de massa e distância do planeta errante.
Os números físicos que mudaram o jogo
Os dados indicam que o planeta possui cerca de 22% da massa de Júpiter, valor muito próximo ao de Saturno.
Sua distância foi calculada em aproximadamente 3.000 parsecs, o equivalente a quase 10 mil anos-luz da Terra.
A estrela de fundo utilizada na análise foi identificada como uma gigante vermelha, confirmada por espectroscopia.
Este é o primeiro planeta errante com massa e distância determinadas diretamente, sem depender apenas de estimativas estatísticas.
O “deserto de Einstein” e a origem desses mundos solitários
Eventos anteriores de microlente sugeriam um vazio estatístico entre planetas e anãs marrons, conhecido como deserto de Einstein.
Esse intervalo indica que objetos mais massivos são menos propensos a serem ejetados de seus sistemas planetários.
O novo planeta se posiciona exatamente nessa região crítica, oferecendo uma peça-chave para modelos teóricos.
Os resultados reforçam a ideia de que processos dinâmicos violentos moldam tanto planetas ligados a estrelas quanto aqueles expulsos para o espaço interestelar.
Autor: Rodrigo Pontes
Fonte científica: Reportagem publicada no portal Phys.org, baseada no estudo publicado na revista Science (2026).
Dados científicos: Massa estimada em ~22% da massa de Júpiter, distância aproximada de 3.000 parsecs (≈10.000 anos-luz), evento de microlente observado por telescópios terrestres e pelo Gaia.


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