A Estrela de Belém é um dos fenômenos mais intrigantes da história, cruzando religião, astronomia e registros antigos. Durante séculos, pesquisadores tentaram entender se o relato bíblico descreve um evento simbólico ou um fenômeno astronômico real.
Agora, um novo estudo publicado no Journal of the British Astronomical Association propõe uma explicação científica ousada e fascinante. A famosa estrela pode ter sido, na verdade, um cometa registrado em textos chineses antigos.
Essa hipótese conecta o relato do Evangelho de Mateus a documentos históricos do Oriente, abrindo um diálogo entre fé, ciência e observações astronômicas feitas há mais de dois mil anos.
O estudo não busca desacreditar narrativas religiosas, mas mostrar que eventos raros no céu podem ter inspirado descrições que atravessaram séculos.
O comportamento estranho da Estrela de Belém
No Evangelho de Mateus, a estrela é descrita como um objeto que se movia à frente dos Magos e depois parecia parar exatamente sobre o local onde Jesus estava.
Esse detalhe sempre foi um problema para astrônomos, já que estrelas e planetas seguem movimentos previsíveis no céu devido à rotação da Terra.
Segundo os autores do estudo, o texto bíblico pode estar se referindo a qualquer objeto celeste visível, não necessariamente a uma estrela no sentido moderno.
Essa interpretação abre espaço para eventos raros, capazes de criar a impressão de um objeto que desacelera ou parece estacionário no céu.
Quando um cometa pode parecer parado no céu
Normalmente, objetos celestes nascem no leste e se põem no oeste, um efeito direto da rotação terrestre.
No entanto, existe um cenário raro chamado de movimento geossíncrono temporário, no qual um objeto acompanha a rotação da Terra por algumas horas.
Simulações computacionais mostraram que um cometa, se estivesse na posição e velocidade corretas, poderia parecer quase imóvel no céu.
Esse efeito criaria exatamente a impressão descrita no texto bíblico, sem necessidade de um evento sobrenatural.
O registro chinês que mudou tudo
Durante a análise de documentos históricos, os pesquisadores encontraram uma referência no Han Shu, um texto oficial da dinastia Han.
O documento menciona uma “estrela-vassoura”, termo usado na China antiga para designar cometas.
O registro data do segundo mês do segundo ano, correspondente ao período entre março e abril de 5 a.C., uma janela compatível com estimativas para o nascimento de Jesus.
Além disso, o texto afirma que o objeto permaneceu visível por mais de 70 dias, indicando que se tratava de um fenômeno brilhante e marcante.
Simulações, Herodes e o papel dos Magos
Modelos numéricos sugerem que esse cometa poderia ter passado relativamente próximo da Terra em junho de 5 a.C.
Nesse cenário, ele teria ficado visualmente estacionário sobre a região de Belém por cerca de duas horas.
O período também coincide com o reinado de Herodes, figura central nos relatos do nascimento de Jesus.
Os pesquisadores analisaram ainda crenças astrológicas antigas e descobriram que cometas nem sempre eram vistos como maus presságios, podendo simbolizar eventos ligados a reis e dinastias.
Se um fenômeno astronômico raro foi capaz de inspirar uma das histórias mais conhecidas da humanidade, até que ponto ciência e tradição podem estar descrevendo o mesmo céu sob perspectivas diferentes?
Créditos e fontes
Autor do texto: Rodrigo Pontes
Fonte científica: Phys.org
Dados técnicos: Journal of the British Astronomical Association (2025) DOI: 10.64150/193njt


0 Comentários