Quando a matéria desafia a lógica: o supersólido que nasce de um superfluido




Imagine um estado da matéria capaz de desafiar, ao mesmo tempo, o senso comum e décadas de consensos científicos. Um estado que flui sem atrito, como se ignorasse completamente a resistência do universo, mas que também se organiza em padrões rígidos e ordenados, lembrando um cristal perfeito. Durante muito tempo, essa ideia soou como um paradoxo insolúvel. Hoje, ela é uma observação direta publicada na revista Nature, marcando um dos momentos mais intrigantes da física quântica contemporânea.

Estados da matéria além do óbvio

No cotidiano, aprendemos que a matéria se apresenta em formas bem definidas, como sólidos, líquidos e gases. Essa classificação funciona bem para a maior parte das situações práticas, mas representa apenas uma fração limitada da realidade física. Quando partículas são submetidas a condições extremas, como temperaturas próximas do zero absoluto ou confinamento em escalas quânticas, surgem comportamentos que não se encaixam em nenhuma dessas categorias clássicas.

Nesses regimes extremos, as leis da mecânica quântica deixam de ser apenas correções microscópicas e passam a dominar o comportamento coletivo do sistema. Fenômenos como coerência quântica, entrelaçamento e fases coletivas tornam-se visíveis em escalas macroscópicas, revelando estados da matéria que parecem mais ficção científica do que física experimental tradicional.

Quando o impossível vira observável

É nesse contexto que surgem os superfluidos e os supersólidos, estados que não apenas ampliam a classificação tradicional da matéria, mas a desafiam diretamente. O que antes era tratado como uma curiosidade teórica passou a ser explorado experimentalmente graças ao avanço de técnicas de resfriamento extremo, controle de materiais bidimensionais e campos magnéticos intensos.

Essas descobertas mostram que a matéria pode assumir formas altamente organizadas e, ao mesmo tempo, exibir propriedades coletivas que ignoram conceitos fundamentais do mundo clássico, como atrito e dissipação de energia.

O comportamento extraordinário dos superfluidos

Um superfluido surge quando partículas quânticas passam a agir como um único objeto coletivo. Ao serem resfriadas a temperaturas próximas de -273 °C, essas partículas entram em um estado no qual o atrito interno simplesmente desaparece. O resultado é um fluxo perfeito, sem perda de energia, algo inconcebível dentro da física clássica.

Esses fluidos apresentam propriedades impressionantes, como a capacidade de subir pelas paredes de um recipiente, atravessar fendas microscópicas e formar vórtices quânticos extremamente estáveis. Esses redemoinhos podem persistir indefinidamente, funcionando como assinaturas visíveis da coerência quântica do sistema.

Do hélio ultrafrio a sistemas artificiais

Historicamente, superfluidos foram observados em sistemas como o hélio líquido ultrafrio e em gases atômicos confinados por armadilhas ópticas. Nesses casos, o comportamento coletivo emerge de forma relativamente bem compreendida, dentro de modelos já estabelecidos da física quântica.

O que ninguém esperava era que esse mesmo estado pudesse evoluir espontaneamente para algo ainda mais paradoxal, combinando fluidez perfeita com uma estrutura rígida e ordenada, algo que parecia violar princípios fundamentais da matéria.

Excítons, grafeno e o nascimento do supersólido

O avanço recente está ligado ao estudo de entidades conhecidas como excítons, quase-partículas formadas pela ligação entre um elétron e uma lacuna eletrônica. Embora não existam livremente no espaço, os excítons se comportam como partículas reais dentro de materiais sólidos, permitindo a formação de estados quânticos coletivos altamente complexos.

No experimento, os pesquisadores utilizaram duas camadas de grafeno, separadas por uma distância extremamente pequena, submetidas a um campo magnético intenso e resfriadas quase até o zero absoluto. Nessas condições, formou-se uma verdadeira sopa quântica de excítons, com comportamento coletivo altamente sensível à temperatura.

A transição que redefine limites

Entre 1,5 e 4 kelvin, o sistema se comportava como um superfluido. No entanto, ao reduzir ainda mais a temperatura, ocorreu uma transição inesperada: o material tornou-se eletricamente isolante e passou a exibir uma estrutura periódica cristalina, sem perder completamente suas propriedades quânticas coletivas.

Segundo os autores, essa é a primeira observação direta de um supersólido de excítons formado de maneira espontânea e reversível. Ao aquecer o sistema, ele retorna ao estado de superfluido, confirmando uma transição de fase genuína e abrindo novas possibilidades para o estudo de materiais quânticos avançados.

Artigo: Rodrigo Pontes — 09/02/2026
Curadoria: Juliano Cangussu

Referências e bases teóricas incluem estudos clássicos e recentes sobre superfluidez e supersolidez publicados em periódicos como Nature, Physical Review Letters e Reviews of Modern Physics, além de trabalhos acadêmicos sobre excítons em grafeno e estados quânticos coletivos em sistemas bidimensionais.

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