Lado oculto da Lua é mais frio: descobertas da missão Chang'e-6

Comparação: lado visível e lado oculto da Lua (imagem Clementine / NASA)
Comparação entre o lado visível (esquerda) e o lado oculto (direita) da Lua. Crédito: NASA / Clementine.

Cientistas que analisaram fragmentos trazidos pela missão Chang'e-6 encontraram evidências de que o interior do lado oculto da Lua foi mais frio quando comparado com o lado que sempre nos é visível.

Em termos simples, é como observar duas panelas esfriando em ritmos diferentes — uma reteve calor por mais tempo. Essas “panelas” são porções do manto lunar que solidificaram há bilhões de anos.

A conclusão veio da análise de minerais e isótopos presentes nas rochas. Essa assinatura química funciona como um registro térmico do passado. O resultado indica que o lado oculto cristalizou a temperaturas cerca de 100 °C menores do que o lado visível.

Isso é relevante porque mostra que as diferenças lunares não se limitam à superfície. Elas se estendem ao interior do satélite, levantando novas questões sobre impactos antigos, dinâmica interna e distribuição de elementos radioativos.

Evidências das amostras Chang'e-6

As análises químicas revelam diferenças na concentração de elementos que geram calor por decaimento radioativo, como urânio, tório e potássio. Menos desses elementos implica menor aquecimento interno e resfriamento mais rápido.

Entre as hipóteses levantadas estão um impacto colossal no passado, que teria redistribuído materiais de forma desigual, ou até mesmo a possibilidade de a Lua ter se formado a partir da fusão de dois corpos com histórias térmicas distintas.

Dados de satélite combinados com experimentos em laboratório ajudaram a reconstruir essa história térmica. Embora o quadro ainda não seja definitivo, trata-se do primeiro retrato baseado em amostras reais do lado oculto — um divisor de águas para a ciência lunar.

O contraste entre as duas faces da Lua, antes visto apenas na aparência, agora revela pistas profundas sobre a formação e evolução do sistema Terra-Lua.

Temperaturas no manto lunar: metodologia e comparação

Para estimar as temperaturas de cristalização, os pesquisadores analisaram minerais como olivina, piroxena e plagioclásio, além de isótopos de chumbo derivados do decaimento do urânio. Essa combinação atua como um “termômetro geológico”.

Comparações com simulações computacionais indicam que as rochas do lado oculto solidificaram em torno de 1.100 °C, aproximadamente 100 °C a menos do que rochas equivalentes do lado próximo.

Modelagens adicionais sugerem que, ainda antes da cristalização, a rocha-mãe do lado oculto já era cerca de 70 °C mais fria.

A menor abundância de elementos produtores de calor no lado oculto ajuda a explicar esse resfriamento acelerado ao longo da história lunar.

Impactos para a origem lunar

Uma das hipóteses mais discutidas envolve um impacto gigantesco, capaz de concentrar materiais ricos em elementos radioativos no lado visível, deixando o lado oculto termicamente empobrecido.

Outra possibilidade sugere que a Lua se formou a partir da fusão de dois corpos com perfis térmicos distintos, cada um contribuindo com uma “herança” diferente.

Também entra em cena a distribuição desigual do material KREEP (potássio, elementos de terras raras e fósforo), mais abundante no lado visível e associado a maior produção de calor interno.

Modelos recentes ainda consideram a influência do brilho intenso da Terra primitiva, que poderia ter provocado circulação no oceano magmático lunar, moldando diferenças crustais e térmicas entre as duas faces.

No fim das contas, a Lua continua revelando que suas duas faces contam histórias bem diferentes — e essas diferenças ajudam a reescrever os capítulos iniciais da formação lunar.

Texto por Rodrigo Pontes — PortalCienciaNews.com.br | Fonte: Phys.org (Far side of the moon may be colder than the near side)

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